Prescrições Padronizadas: O Caminho para a Verdadeira Utilidade do PEP?

Renato M.E. Sabbatini, PhD, CPHIMS *

Numerosos estudos publicados na literatura sobre sistemas de prontuário eletrônico (PEP) demonstraram que a fase mais susceptível a erros médicos é a da elaboração da conduta a ser seguida para um paciente. O que os americanos chamam de CPOE (Computerized Physician Order Entry), é, na maioria dos sistemas de PEP, um procedimento complexo, demorado e sujeito a equívocos.

O mais alarmante é o número de erros potencialmente cometidos: de 10% a 12% das medicações, sendo 50% delas clinicamente significantes. São comuns as alergias detectadas, mas ignoradas, interações medicamentosas sérias, erros de dosagem ou via de administração, e omissões de medicações necessárias, além da troca entre nomes similares de drogas totalmente distintas quanto à indicação.

Mas a conduta clínica não abrange somente os medicamentos: pedidos de exames de imagens e de laboratório, internações e realização de procedimentos médicos e paramédicos etc. A grande maioria dos PEPs nacionais exige a entrada sucessiva em módulos não integrados entre si. Este quadro leva a uma grande rejeição da tecnologia pelos médicos e outros profissionais.

É intrigante que não se utilize aqui uma solução simples e que existe há décadas no exterior: os conjuntos prescricionais padronizados, uma tradução não muito satisfatória, mas bem descritiva do termo em inglês, “order sets” (OS). Eles consistem em pré-gravar no sistema listas padronizadas, baseadas em evidências, e elaboradas por eminentes especialistas, acessadas com um único clique, em menos de um minuto! Genial, não?

Essas listas de coisas a pedir, solicitar ou ordenar, os “order sets”, são construídos e associados a um determinado diagnóstico, com o necessário nível de detalhe. Alguns desses itens são obrigatórios, enquanto outros podem ser modificados, caso seja necessário para a personalização da conduta. Ao final da seleção, o sistema inicia a produção automática de todos os documentos gerados pelo CPOE. Diversos estudos demonstram as enormes vantagens trazidas pela adoção dos “order sets” nos PEPs.

Mas quem os produz? São centenas, se não milhares de conjuntos que devem ser compilados e testados na prática, a partir de consensos e diretrizes clínicas, e ser mantidos e atualizados constantemente. Existem várias soluções para isso. A pior de todas seria deixar essa governança completamente na mão dos usuários (os hospitais, por exemplo). A segunda seria as empresas que fornecem o software também fornecerem os conjuntos prescricionais padronizados, embutidos nos mesmos. Finalmente, a mais racional das soluções seria assinar serviços na nuvem, criados por editoras de alta qualidade e confiabilidade, que fornecem conjuntos prescricionais completos e se responsabilizam pela atualização. Existem algumas empresas que fazem isso, sendo a que tem a maior penetração do mercado em todo o mundo a conhecida Elsevier Clinical Solutions.

Eu tenho certeza que os “order sets” têm um potencial revolucionário para a digitalização dos documentos e processos clínicos no Brasil. Basta os provedores de soluções de software desenvolverem essa funcionalidade e cuidarem da integração com as bases de conhecimento existentes.

 

  • Sobre o autor:

O Prof. Dr. Renato Marcos Endrizzi Sabbatini é reconhecido internacionalmente com um dos pioneiros na Informática Médica no país, atuando na área desde 1970. Graduado em ciências biomédicas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, foi fundador e presidente da Sociedade Brasileira de Informática em Saúde, professor e pesquisador na área pela USP e UNICAMP, e é Fellow Elect da International Academy of Health Sciences Informatics da IMIA: International Medical Informatics Association. Contato: renato@sabbatini.com